Sansara trazia um símbolo sagrado em seu peito e brincava com as hastes das mentes mais singelas. Sansara sabia das margens onde este signo poderia levá-la, essa noção de quem já tivera fogo ateado no corpo inteiro. Caminhava pela cidade escura e cinza e, embora sentisse no peito o fogo e o símbolo, não se arriscava a dizer. Sansara não dizia. Sansara era assim. Sansara era muda.
Jurara falar apenas depois de despedir-se da sensação opaca, da loucura opaca em que transformara a sua vida. Café, limão, chá, chão duro e mentiras muitas a fizeram calar e procurar por um silêncio parecido com o que, às vezes, encontrava debaixo da água. Para onde teria ido a sua poesia quente? Perguntava-se indagando não sabia quem, nem onde, nem como. Nada mais era concreto em si. Tudo parecia para ela muito mais uma invenção do que a sua própria existência. Sabia ser toda existência uma invenção, mas acreditava daquela vez ter ido longe demais ao mentir para si e para o mundo sobre quem era.
Sansara, a muda, muda em seu apartamento caixinha de fósforo empilhada, cada dia sonhava um lugar diferente. Uma ousadia que não ousaria. Um passo. Um, quem sabe assim todos perceberão e assim quem sabe todos saberão e me convencerão de que. Na cidade onde Sansara vivia existia apenas a loucura dos que sabiam que os outros pensavam e que sabiam que. Ela estaria sozinha não fosse a sua imensa capacidade de procurar onde se acha.
Onde fica a ala dos libertos? Onde fica a ala dos libertos quando os libertos estão lá fora e a prisão aprisiona de dentro para fora? Onde estão os que alimentam esta prisão – a mãe de Sansara, o pai de Sansara, os tios, e Deus, e os livros, e os mestres, e as escolas que haviam ensinado a Sansara a dor de ter motivos para não acreditar-se. Para não ser.
Aquela noite, ela fechou os olhos e sonhou que estava caindo de um prédio enorme cheio de janelas e que caía lentamente. Por isso, via as janelas uma a uma. Olhos tranqüilos de quem soube o que fazer e nunca fez. Como poderia, sem fé? Abriu os olhos decidida a jogar-se mesmo, aquela noite, acabar com aquela sensação opaca e já opaca de esperanças onde nada em si parecia valer mais a pena. Há muito havia se perdido de si mesma em meio a uma multidão que nela habitava. Ousaria, se ousasse, jogar-se prédio abaixo, deixando perplexos os que acreditavam estar diante de uma moça tão feliz.
Ousaria se ousasse, mas não ousou. Acordou novamente esperando por algo que obviamente não viria. Ela teria de ir, mas não ia. Sentia-se Hamlet, num eterno e tedioso ser ou não ser. Tedioso esse ser-ou-não-ser. Mentiroso, brutal, cruel, manipulado ser-ou-não-ser. Ingênuo não ser que se afirma como cápsula protetora. Sansara não sabia, mas queria morrer.
E estava quase invisível cumprindo os seus papéis todos, pedindo desculpas a todos por ter desejos tão desajeitados quando o completo, o belo, o inesperado, o real cruzou o seu caminho. Um olhar repentino e que falava em outra língua e que compartilhava com ela daquilo que ela já não era mais. Ou seria? Porque teria olhado? Porque teria então corrido o imenso risco de olhar e ver?
Era uma noite cinza e sem estrelas na cidade de Sansara. E mesmo assim ela olhou. E até sorriu de verdade, como não ousava fazer a muito. Entendera em um momento que ainda havia salvação e que voltaria a sentir, que fosse dor, medo, angústia ou saudade, mas que sentiria, tolamente, sentiria simplesmente. Simplesmente poderia novamente inflar-se de sentidos só seus.
Quebrou-se.
(Inspirado em "Wise up", de Aimee Mann, trilha do filme Magnólia)
It's not
What you thought
When you first began it
You got
What you want
Now you can hardly stand it though
By now you know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up.
You're sure
There's a cure
And you have finally found it
You think
One drink
Will shrink you 'til you're underground
And living down
But it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up.
Prepare a list of what you need
Before you sign away the deed
'Cause it's not going to stop
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
So just give up
Se tocar
Não é o que você pensou
Quando você começou isso
Você conseguiu o que queria
Agora você mal consegue suportar, embora
Agora você saiba, isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar
Você está certo de que existe uma cura
E que você finalmente encontrou ela.
Você pensa que um drinque
Vai encolher você, até você quase desaparecer
E estar no chão, mas isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar
Prepare uma lista do que você precisa
Antes que a morte venha te buscar
Porque isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Então simplesmente desista
2 comentários:
Bela forma querida! Estarei acompanhando em meu rss fedder. Beijo
muda e incendiada... e agente reclama da nossa vida! adorei deca parabens!
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