segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O artesão de nanquim


A fina pena deslizava, leve de pluma. Ele a observava, tênue, com olhos leves embora cansados. O que faria se aquilo continuasse? Molhava novamente a ponta da pena no nanquim. Dentro de si havia o peso, a pressão no peito, a vontade de prosseguir mas sem nenhum prosseguimento. A cada ação com a pena, logo em seguida, vinha a gravidade, ou a pressão atmosférica, ou algum pensamento de longe trazendo preocupações muito mundanas. A Dona Maria dissera para sua mulher que ele era um vagabundo. Esta dona Maria deveria ir para os infernos. O que entendia ela, que só sabia lavar panos e cozinhar malcheirosos cozidos, sobre a arte e função de um poeta? Sua mulher era mesmo uma tola por escutar as palavras de tal dona, e tão despreparada para não contra-atacar dizendo “escute, meu marido é um poeta, um servo dos deuses que inspiram a noite de escuridão e trevas, com o único desejo de trazer aos homens as iluminuras da beleza”. Mas não, a mulher escutava as falas de Dona Maria e chorava enxugando as lágrimas no avental quando de noite ele chegava das ordens de seu ofício. Como podia a mulher não compreender que um poeta precisa ver um pouco de mar, entender um pouco das estrelas, ouvir conversas de seu povo em seu tempo ou simplesmente vaguear pelas estreitas ruelas da cidade?

A pena com o nanquim, diante dele. Ele diante da pena apenas em estado bruto e denso, pois em pensamento corria atrás da mulher e de Dona Maria. Quando sentiu a folha em branco diante de si, dera-se conta de ter estado horas a fio por devaneios tolos, que em nada alimentavam a sua marcenaria de poeta. Para onde teria ido a inspiração, o desejo, o ímpeto apaixonado que já o fizera lançar tantos mundos no mundo? Onde estariam as cores de outrora? Porque elas haviam fugido, transformando seu mundo em um lugar opaco, de onde não brotavam sequer palavras desconexas, fumaças que nem a ele nem a ninguém poderiam fazer fermentar a imaginação? Que luta era aquela que precisava empreender consigo?

Inspirou ar, ardorosamente desejando que junto com ele viesse a idéia iluminada que perseguia nos últimos dias e meses, e que dele escondia-se até mesmo em esquinas de sonhos. Inspirou novamente, agora com a ponta da pena apontada para o ar. Levantou-se, silencioso, foi até a janela do pequeno e isolado quarto. Olhou para as estrelas e para a lua, que estava cheia e amarela. Nada. Recostou-se nas paredes, escorregando por elas. Nem uma pequena partícula de fagulha. Resolveu sair para sentir o ar fresco, andando descalço pela terra de seu quintal, modificando parte de seu ritual sagrado e diário de buscar pela inspirada forma de trazer ao mundo dos homens as iluminuras da beleza. Descalço e no escuro, sentiu por debaixo de seus pés os pedregulhos de diferentes tamanhos e teve vontade de deitar sobre a terra. Deitou-se e mirou o luar, até que este se despedisse do céu e o sol retornasse. Fechou os olhos e dormiu, exausto, sonhando encher muitas páginas em branco com mágicas poções para a imaginação dos homens, capazes de fazê-los caminhar por entre estrelas iluminadas em céus nunca dantes visitados.

Acordou com o grito da mulher, aos prantos:

- Vagabundo! Dormiu no jardim, no meio das flores! Quando vai parar de agir como um maluco? Você só precisa escrever, não precisa deitar-se no jardim, pode dormir durante a noite, pode me ajudar com a lenha!

Levantou-se. A mulher jamais compreenderia. O mundo jamais compreenderia que a sua função era dotada de importância, que era dele a missão de produzir sonhos para se ter acordado, colorindo e movimentando com as palavras cada tentáculo de vida. Cada tentáculo de vida....

Seus olhos de encheram de lágrimas e ele beijou a mulher, pouco se importando com o xingamento – e esquecendo-se completamente de Dona Maria. Tentáculo de vida, é claro! Era esta a fagulha que procurava, não a lua, nem as estrelas, mas os tentáculos da vida em seus movimentos desesperados e...

Correu para o nanquim, para a pena e não foi por muito tempo que as folhas ficaram em branco. Pegou seu material e saiu para perto do mar, onde ficou escrevendo por horas a fio, fascinado com o que então sentira, descobrira, a si revelara... um tentáculo de vida, uma tentativa de palavra, uma tentação de faísca.Pôde novamente respirar e sentir-se poeta, sentir-se sendo. Tentáculos da vida...

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(Tentada a escrever em plena madrugada pela contundente "Livros" de Caetano Veloso, trilha de cantos de voz, trilha de imagens de vida inteira, trilha que explica didaticamente aqueles objetos transcendentes que podemos amar do amor tátil que voltamos aos maços de cigarros...)

O lugar


- Corra!
- Mas para onde estamos indo, estou ferido, você não está vendo?
- Sim, eu estou vendo, mas não podemos parar. Temos de correr, correr! Entende? Corra, por favor, não me desespere, não me desespere a deixá-lo aqui sozinho...
- Tudo bem (enxugando as lágrimas), vou ajudá-lo a corrermos juntos.
- E este maldito entardecer! Este maldito entardecer a me encher de lembranças doces, maldito, maldito!
- Não fale assim....assim meu choro cresce e quanto mais ele cresce menos posso correr, menos posso ajudar você a não se desesperar. Esqueça a tarde . Estamos neste deserto laranja, há o alaranjado de tudo vibrando e meu coração bombeia tanto sangue, tanto, que penso que ele irá explodir. Se eu sentir a beleza da vida ele irá explodir, você entende? Fique aí com suas belezas, com seus maldizeres, suas injúrias, mas não diga nada para mim, eu não quero ouvir!
- Cale esta maldita boca! Quando mais você fala menos corre e nós precisamos correr, precisamos correr. Você bem sabe que não sei para onde estamos indo, mas não quero que deixemos de ir juntos então, por favor, mantenha-se vivo e corra, não chore, não esperneie, eu só disse que a beleza da tarde me dói, porra! Você não é único ferido aqui, sabia? Sabia? Eu estou agora correndo, perdido, no meio de um deserto laranja e me sinto como um menino que brinca de correr para sentir o sol que há em todos os seus músculos. Estou sentindo o sol nos meus músculos, porra!
- Mas e se estivermos correndo para o lugar errado?
- Estamos correndo para algum lugar, não vamos parar agora. Se encontrarmos um lugar, um lugar, está me ouvindo, qualquer lugar, já estaremos salvos. Não posso te dizer que é o lugar certo, nem que é o errado. Disto nós nunca saberemos. Mas se ficarmos parados aqui, morreremos. Começaremos por não sentir nossas pernas, depois nossos braços e, quando menos percebermos, estaremos acreditando que este deserto é uma cidade, que estamos caminhando por entre pessoas apressadas. Começaremos a ver cores que não existem aqui. E acharemos que esses urubus são deuses. Nos acreditaremos felizes enquanto estivermos definhando, nos sentiremos alimentados de terra e pó. Se pararmos, não chegaremos nós ao pó. Seremos pó muito antes da nossa morte.
- Então vamos correr, correr muito rápido. Assim meu ferimento poderá se curar, de repente com o vento, mas correrei, prometo,enquanto ele continuar ardendo. Eu vou correr, eu vou correr. Não vou temer mais explodir, a tarde é bela é laranja, e os mosquitinhos pretos ficam fazendo horizonte. Meus braços paralelos, meu tronco no meio, o horizonte do meu corpo na vertical. Nada disso vai virar pó antes da minha morte. Vê como eu corro rápido? Sinto o sol no meu peito agora, quero correr como um pássaro. Você não precisará seguir sozinho, seguiremos correndo juntos, é só eu poder às vezes enxugar minha lágrimas, mas é só.Vamos correr.

(Ainda corriam quando se depararam com um imenso lago de águas escuras. Ali se lançaram, nus e em silêncio. E ali ficaram até que a noite viesse e sentiram-se navegando seus corpos entre as estrelas. Na manhã seguinte, atordoados de água e de sol, foram encontrados por um velho. "Isto aqui é melhor que correr! E vocês continuarão vivos!”, explicou o velho em seus passos de tamanca. Não se sabe se preferiram continuar correndo ou se decidiram pelos passos lentos do velho. O lugar, este de que falavam e que esperavam encontrar, ainda é um mistério para mim).


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(Embalada e inspirada por "Para lá", do sempre tão companheiro de sensações profundas e singelas, de momentos sagrados de religar com o pó da infância, Arnaldo Antunes)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sansara


Sansara trazia um símbolo sagrado em seu peito e brincava com as hastes das mentes mais singelas. Sansara sabia das margens onde este signo poderia levá-la, essa noção de quem já tivera fogo ateado no corpo inteiro. Caminhava pela cidade escura e cinza e, embora sentisse no peito o fogo e o símbolo, não se arriscava a dizer. Sansara não dizia. Sansara era assim. Sansara era muda.

Jurara falar apenas depois de despedir-se da sensação opaca, da loucura opaca em que transformara a sua vida. Café, limão, chá, chão duro e mentiras muitas a fizeram calar e procurar por um silêncio parecido com o que, às vezes, encontrava debaixo da água. Para onde teria ido a sua poesia quente? Perguntava-se indagando não sabia quem, nem onde, nem como. Nada mais era concreto em si. Tudo parecia para ela muito mais uma invenção do que a sua própria existência. Sabia ser toda existência uma invenção, mas acreditava daquela vez ter ido longe demais ao mentir para si e para o mundo sobre quem era.

Sansara, a muda, muda em seu apartamento caixinha de fósforo empilhada, cada dia sonhava um lugar diferente. Uma ousadia que não ousaria. Um passo. Um, quem sabe assim todos perceberão e assim quem sabe todos saberão e me convencerão de que. Na cidade onde Sansara vivia existia apenas a loucura dos que sabiam que os outros pensavam e que sabiam que. Ela estaria sozinha não fosse a sua imensa capacidade de procurar onde se acha.

Onde fica a ala dos libertos? Onde fica a ala dos libertos quando os libertos estão lá fora e a prisão aprisiona de dentro para fora? Onde estão os que alimentam esta prisão – a mãe de Sansara, o pai de Sansara, os tios, e Deus, e os livros, e os mestres, e as escolas que haviam ensinado a Sansara a dor de ter motivos para não acreditar-se. Para não ser.

Aquela noite, ela fechou os olhos e sonhou que estava caindo de um prédio enorme cheio de janelas e que caía lentamente. Por isso, via as janelas uma a uma. Olhos tranqüilos de quem soube o que fazer e nunca fez. Como poderia, sem fé? Abriu os olhos decidida a jogar-se mesmo, aquela noite, acabar com aquela sensação opaca e já opaca de esperanças onde nada em si parecia valer mais a pena. Há muito havia se perdido de si mesma em meio a uma multidão que nela habitava. Ousaria, se ousasse, jogar-se prédio abaixo, deixando perplexos os que acreditavam estar diante de uma moça tão feliz.

Ousaria se ousasse, mas não ousou. Acordou novamente esperando por algo que obviamente não viria. Ela teria de ir, mas não ia. Sentia-se Hamlet, num eterno e tedioso ser ou não ser. Tedioso esse ser-ou-não-ser. Mentiroso, brutal, cruel, manipulado ser-ou-não-ser. Ingênuo não ser que se afirma como cápsula protetora. Sansara não sabia, mas queria morrer.

E estava quase invisível cumprindo os seus papéis todos, pedindo desculpas a todos por ter desejos tão desajeitados quando o completo, o belo, o inesperado, o real cruzou o seu caminho. Um olhar repentino e que falava em outra língua e que compartilhava com ela daquilo que ela já não era mais. Ou seria? Porque teria olhado? Porque teria então corrido o imenso risco de olhar e ver?

Era uma noite cinza e sem estrelas na cidade de Sansara. E mesmo assim ela olhou. E até sorriu de verdade, como não ousava fazer a muito. Entendera em um momento que ainda havia salvação e que voltaria a sentir, que fosse dor, medo, angústia ou saudade, mas que sentiria, tolamente, sentiria simplesmente. Simplesmente poderia novamente inflar-se de sentidos só seus.

Quebrou-se.

(Inspirado em "Wise up", de Aimee Mann, trilha do filme Magnólia)



It's not
What you thought
When you first began it
You got
What you want
Now you can hardly stand it though
By now you know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up.
You're sure
There's a cure
And you have finally found it
You think
One drink
Will shrink you 'til you're underground
And living down
But it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up.
Prepare a list of what you need
Before you sign away the deed
'Cause it's not going to stop
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
So just give up


Se tocar

Não é o que você pensou
Quando você começou isso
Você conseguiu o que queria
Agora você mal consegue suportar, embora
Agora você saiba, isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Você está certo de que existe uma cura
E que você finalmente encontrou ela.
Você pensa que um drinque
Vai encolher você, até você quase desaparecer
E estar no chão, mas isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Prepare uma lista do que você precisa
Antes que a morte venha te buscar
Porque isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Não, isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Então simplesmente desista

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Rosa da Palavra


Guimarães Rosa e Caetano Veloso sob o fino fio do silêncio canoa.



Dentre os desditos da palavra, o expressar do não dito se acumula e se faz em veredas que tocam, de tão táteis, que reverberam na alma. Da letra, da palavra, nascem e jazem ensinamentos múltiplos. Em centenas de caracteres, porém, apenas o descrever de um sentimento ínfimo, uma pontada de ponto que cada um pode imaginar de sua cor – aquela pontada vermelha no estômago, aquela de cor verde que é baque no peito, aquela mais arroxeada que faz espaço umbigo abaixo.

Letra e palavra enquanto toras, e a asa da palavra que é silêncio e que nem por isso deixa de se estender entre os assuntos cotidianos onde se comenta sobre o vício do cigarro, a qualidade do café, Chavez na Venezuela, tropas militares no Iraque. O que dizemos? O que dizemos quando ousamos dizer nada?. O que não se diz, e em princípio em si não é palavra, faz sobre as cabeças sombra, em vezes recanto, em vezes apenas escuro. Sendo asa, ainda que muda. É desta inspiração que se faz, para mim, a relação entre o conto de Guimarãoes Rosa A Terceira Margem do Rio e a canção de Caetano Veloso, com o mesmo nome. Do acúmulo de dias do personagem narrador do conto, a musicalidade de água do rio leva o Pai na canção feita por Caetano, no fino fio do silêncio que desespera e grita.

Se lá está o Pai, assim, maiúsculo, a embrutecer em sua escolha solitária, na margem fica o filho, assim minúsculo, sem compreender o que escolhera aquele outro, que é ele e que a ele deveria passar o bastão nesta vida. Somos margem de outros. Caminhamos para margens que não são apenas nossas. Desesperamos em culpa quando decide-se de solidão aquele que amamos. Mais ainda, quando o faz aquele que em outro somos. A musicalidade desta canção me surpreende e se reconhece em águas sensoriais minhas, porque escuto em mim o Rio-Pai correndo, caloroso e firme, reto e balizado, a carregar singelas canoas – e, nesta história, a canoa específica do Pai que se retira, que silencia e que passa a existir em seu filho numa missão de culpa e amor. O Rio Pau Enorme Nosso Pai, que corre para o extenso, inconsciente, misterioso profundo, cálido e infinito Mar-Mãe. O rio sério, de fundura definida, sem barulho de onda e se fazendo som apenas na enxurrada.

A canoa terceira margem, a margem entre pai e filho, a margem para onde o filho não parte. Margem de destino frágil, margem que navega, margem de lado-de-lá. Escolher o lá não pôde o filho, resignar-se e seguir o destino escolhido pelo pai, que em silêncio o escolhera e que do silêncio fez palavra mais que dura, mais que firme, mas que barrenta. Rio é barro, rio é tora. Destino que se apresenta barro, que se apresenta tora. Escolher o lado de lá quem poderia? Sob a asa da palavra, a rosa da palavra que é silêncio profundo e misterioso, oferecida em suspenso nos sentidos de pai e filho, uma reflexão profunda de rio em nada fábula e, não por acaso, também canção.

Aqui, o conto de Guimarães Rosa.

Abaixo uma versão lindíssima da música - com Caetano e Milton Nascimento, juntos, cantando e comentando o seu processo de criação.



E a letra da versão presente no álbum “Circuladô”:

A terceira margem do rio
Composição: Caetano Veloso/Milton Nascimento

Oco de pau que diz:Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai