A fina pena deslizava, leve de pluma. Ele a observava, tênue, com olhos leves embora cansados. O que faria se aquilo continuasse? Molhava novamente a ponta da pena no nanquim. Dentro de si havia o peso, a pressão no peito, a vontade de prosseguir mas sem nenhum prosseguimento. A cada ação com a pena, logo em seguida, vinha a gravidade, ou a pressão atmosférica, ou algum pensamento de longe trazendo preocupações muito mundanas. A Dona Maria dissera para sua mulher que ele era um vagabundo. Esta dona Maria deveria ir para os infernos. O que entendia ela, que só sabia lavar panos e cozinhar malcheirosos cozidos, sobre a arte e função de um poeta? Sua mulher era mesmo uma tola por escutar as palavras de tal dona, e tão despreparada para não contra-atacar dizendo “escute, meu marido é um poeta, um servo dos deuses que inspiram a noite de escuridão e trevas, com o único desejo de trazer aos homens as iluminuras da beleza”. Mas não, a mulher escutava as falas de Dona Maria e chorava enxugando as lágrimas no avental quando de noite ele chegava das ordens de seu ofício. Como podia a mulher não compreender que um poeta precisa ver um pouco de mar, entender um pouco das estrelas, ouvir conversas de seu povo em seu tempo ou simplesmente vaguear pelas estreitas ruelas da cidade?
A pena com o nanquim, diante dele. Ele diante da pena apenas em estado bruto e denso, pois em pensamento corria atrás da mulher e de Dona Maria. Quando sentiu a folha em branco diante de si, dera-se conta de ter estado horas a fio por devaneios tolos, que em nada alimentavam a sua marcenaria de poeta. Para onde teria ido a inspiração, o desejo, o ímpeto apaixonado que já o fizera lançar tantos mundos no mundo? Onde estariam as cores de outrora? Porque elas haviam fugido, transformando seu mundo em um lugar opaco, de onde não brotavam sequer palavras desconexas, fumaças que nem a ele nem a ninguém poderiam fazer fermentar a imaginação? Que luta era aquela que precisava empreender consigo?
Inspirou ar, ardorosamente desejando que junto com ele viesse a idéia iluminada que perseguia nos últimos dias e meses, e que dele escondia-se até mesmo em esquinas de sonhos. Inspirou novamente, agora com a ponta da pena apontada para o ar. Levantou-se, silencioso, foi até a janela do pequeno e isolado quarto. Olhou para as estrelas e para a lua, que estava cheia e amarela. Nada. Recostou-se nas paredes, escorregando por elas. Nem uma pequena partícula de fagulha. Resolveu sair para sentir o ar fresco, andando descalço pela terra de seu quintal, modificando parte de seu ritual sagrado e diário de buscar pela inspirada forma de trazer ao mundo dos homens as iluminuras da beleza. Descalço e no escuro, sentiu por debaixo de seus pés os pedregulhos de diferentes tamanhos e teve vontade de deitar sobre a terra. Deitou-se e mirou o luar, até que este se despedisse do céu e o sol retornasse. Fechou os olhos e dormiu, exausto, sonhando encher muitas páginas em branco com mágicas poções para a imaginação dos homens, capazes de fazê-los caminhar por entre estrelas iluminadas em céus nunca dantes visitados.
Acordou com o grito da mulher, aos prantos:
- Vagabundo! Dormiu no jardim, no meio das flores! Quando vai parar de agir como um maluco? Você só precisa escrever, não precisa deitar-se no jardim, pode dormir durante a noite, pode me ajudar com a lenha!
Levantou-se. A mulher jamais compreenderia. O mundo jamais compreenderia que a sua função era dotada de importância, que era dele a missão de produzir sonhos para se ter acordado, colorindo e movimentando com as palavras cada tentáculo de vida. Cada tentáculo de vida....
Seus olhos de encheram de lágrimas e ele beijou a mulher, pouco se importando com o xingamento – e esquecendo-se completamente de Dona Maria. Tentáculo de vida, é claro! Era esta a fagulha que procurava, não a lua, nem as estrelas, mas os tentáculos da vida em seus movimentos desesperados e...
Correu para o nanquim, para a pena e não foi por muito tempo que as folhas ficaram em branco. Pegou seu material e saiu para perto do mar, onde ficou escrevendo por horas a fio, fascinado com o que então sentira, descobrira, a si revelara... um tentáculo de vida, uma tentativa de palavra, uma tentação de faísca.Pôde novamente respirar e sentir-se poeta, sentir-se sendo. Tentáculos da vida...
*************
(Tentada a escrever em plena madrugada pela contundente "Livros" de Caetano Veloso, trilha de cantos de voz, trilha de imagens de vida inteira, trilha que explica didaticamente aqueles objetos transcendentes que podemos amar do amor tátil que voltamos aos maços de cigarros...)