segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O lugar


- Corra!
- Mas para onde estamos indo, estou ferido, você não está vendo?
- Sim, eu estou vendo, mas não podemos parar. Temos de correr, correr! Entende? Corra, por favor, não me desespere, não me desespere a deixá-lo aqui sozinho...
- Tudo bem (enxugando as lágrimas), vou ajudá-lo a corrermos juntos.
- E este maldito entardecer! Este maldito entardecer a me encher de lembranças doces, maldito, maldito!
- Não fale assim....assim meu choro cresce e quanto mais ele cresce menos posso correr, menos posso ajudar você a não se desesperar. Esqueça a tarde . Estamos neste deserto laranja, há o alaranjado de tudo vibrando e meu coração bombeia tanto sangue, tanto, que penso que ele irá explodir. Se eu sentir a beleza da vida ele irá explodir, você entende? Fique aí com suas belezas, com seus maldizeres, suas injúrias, mas não diga nada para mim, eu não quero ouvir!
- Cale esta maldita boca! Quando mais você fala menos corre e nós precisamos correr, precisamos correr. Você bem sabe que não sei para onde estamos indo, mas não quero que deixemos de ir juntos então, por favor, mantenha-se vivo e corra, não chore, não esperneie, eu só disse que a beleza da tarde me dói, porra! Você não é único ferido aqui, sabia? Sabia? Eu estou agora correndo, perdido, no meio de um deserto laranja e me sinto como um menino que brinca de correr para sentir o sol que há em todos os seus músculos. Estou sentindo o sol nos meus músculos, porra!
- Mas e se estivermos correndo para o lugar errado?
- Estamos correndo para algum lugar, não vamos parar agora. Se encontrarmos um lugar, um lugar, está me ouvindo, qualquer lugar, já estaremos salvos. Não posso te dizer que é o lugar certo, nem que é o errado. Disto nós nunca saberemos. Mas se ficarmos parados aqui, morreremos. Começaremos por não sentir nossas pernas, depois nossos braços e, quando menos percebermos, estaremos acreditando que este deserto é uma cidade, que estamos caminhando por entre pessoas apressadas. Começaremos a ver cores que não existem aqui. E acharemos que esses urubus são deuses. Nos acreditaremos felizes enquanto estivermos definhando, nos sentiremos alimentados de terra e pó. Se pararmos, não chegaremos nós ao pó. Seremos pó muito antes da nossa morte.
- Então vamos correr, correr muito rápido. Assim meu ferimento poderá se curar, de repente com o vento, mas correrei, prometo,enquanto ele continuar ardendo. Eu vou correr, eu vou correr. Não vou temer mais explodir, a tarde é bela é laranja, e os mosquitinhos pretos ficam fazendo horizonte. Meus braços paralelos, meu tronco no meio, o horizonte do meu corpo na vertical. Nada disso vai virar pó antes da minha morte. Vê como eu corro rápido? Sinto o sol no meu peito agora, quero correr como um pássaro. Você não precisará seguir sozinho, seguiremos correndo juntos, é só eu poder às vezes enxugar minha lágrimas, mas é só.Vamos correr.

(Ainda corriam quando se depararam com um imenso lago de águas escuras. Ali se lançaram, nus e em silêncio. E ali ficaram até que a noite viesse e sentiram-se navegando seus corpos entre as estrelas. Na manhã seguinte, atordoados de água e de sol, foram encontrados por um velho. "Isto aqui é melhor que correr! E vocês continuarão vivos!”, explicou o velho em seus passos de tamanca. Não se sabe se preferiram continuar correndo ou se decidiram pelos passos lentos do velho. O lugar, este de que falavam e que esperavam encontrar, ainda é um mistério para mim).


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(Embalada e inspirada por "Para lá", do sempre tão companheiro de sensações profundas e singelas, de momentos sagrados de religar com o pó da infância, Arnaldo Antunes)

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