Guimarães Rosa e Caetano Veloso sob o fino fio do silêncio canoa.
Dentre os desditos da palavra, o expressar do não dito se acumula e se faz em veredas que tocam, de tão táteis, que reverberam na alma. Da letra, da palavra, nascem e jazem ensinamentos múltiplos. Em centenas de caracteres, porém, apenas o descrever de um sentimento ínfimo, uma pontada de ponto que cada um pode imaginar de sua cor – aquela pontada vermelha no estômago, aquela de cor verde que é baque no peito, aquela mais arroxeada que faz espaço umbigo abaixo.
Letra e palavra enquanto toras, e a asa da palavra que é silêncio e que nem por isso deixa de se estender entre os assuntos cotidianos onde se comenta sobre o vício do cigarro, a qualidade do café, Chavez na Venezuela, tropas militares no Iraque. O que dizemos? O que dizemos quando ousamos dizer nada?. O que não se diz, e em princípio em si não é palavra, faz sobre as cabeças sombra, em vezes recanto, em vezes apenas escuro. Sendo asa, ainda que muda. É desta inspiração que se faz, para mim, a relação entre o conto de Guimarãoes Rosa A Terceira Margem do Rio e a canção de Caetano Veloso, com o mesmo nome. Do acúmulo de dias do personagem narrador do conto, a musicalidade de água do rio leva o Pai na canção feita por Caetano, no fino fio do silêncio que desespera e grita.
Se lá está o Pai, assim, maiúsculo, a embrutecer em sua escolha solitária, na margem fica o filho, assim minúsculo, sem compreender o que escolhera aquele outro, que é ele e que a ele deveria passar o bastão nesta vida. Somos margem de outros. Caminhamos para margens que não são apenas nossas. Desesperamos em culpa quando decide-se de solidão aquele que amamos. Mais ainda, quando o faz aquele que em outro somos. A musicalidade desta canção me surpreende e se reconhece em águas sensoriais minhas, porque escuto em mim o Rio-Pai correndo, caloroso e firme, reto e balizado, a carregar singelas canoas – e, nesta história, a canoa específica do Pai que se retira, que silencia e que passa a existir em seu filho numa missão de culpa e amor. O Rio Pau Enorme Nosso Pai, que corre para o extenso, inconsciente, misterioso profundo, cálido e infinito Mar-Mãe. O rio sério, de fundura definida, sem barulho de onda e se fazendo som apenas na enxurrada.
A canoa terceira margem, a margem entre pai e filho, a margem para onde o filho não parte. Margem de destino frágil, margem que navega, margem de lado-de-lá. Escolher o lá não pôde o filho, resignar-se e seguir o destino escolhido pelo pai, que em silêncio o escolhera e que do silêncio fez palavra mais que dura, mais que firme, mas que barrenta. Rio é barro, rio é tora. Destino que se apresenta barro, que se apresenta tora. Escolher o lado de lá quem poderia? Sob a asa da palavra, a rosa da palavra que é silêncio profundo e misterioso, oferecida em suspenso nos sentidos de pai e filho, uma reflexão profunda de rio em nada fábula e, não por acaso, também canção.
Aqui, o conto de Guimarães Rosa.
Abaixo uma versão lindíssima da música - com Caetano e Milton Nascimento, juntos, cantando e comentando o seu processo de criação.
E a letra da versão presente no álbum “Circuladô”:
A terceira margem do rio
Composição: Caetano Veloso/Milton Nascimento
Oco de pau que diz:Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira
Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas
Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai
Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai
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